A vocação marítima nas coleções do Museu

MARCAS DO MAR

O acervo deste Museu constituiu-se a partir de um primeiro núcleo organizado por um grupo de amigos do Museu da Nazaré, nos anos 1960-70. Ao longo dos tempos, foi sendo ampliado por uma recolha sistemática de objetos, quer através de generosas ofertas da comunidade local, quer de compra, depósitos, legados, doações e ainda  de campanhas arqueológicas levadas a efeito por esta instituição nos anos 1970.

Entre as doações, para além das da comunidade piscatória, referem-se, nomeadamente, as do Eng. Pedro Manso Lefévre (filho de Joaquim Manso), do professor João de Barros (fundo documental), do pintor Lázaro Lozano, o legado de Maria José Salavisa de Mattos e Silva (pintura de Abílio) e a liquidação de herança de Tito Calixto.

 

 

Abrangendo uma grande diversidade de objetos, as coleções organizam-se em secções de Arqueologia; Artes Plásticas e Decorativas com as subsecções de Pintura, DesenhoGravura, Escultura, e Fotografia; e Etnografia, onde se incluem as embarcações tradicionais, artes de pesca e o traje da Nazaré.

Com predomínio da vertente etnográfica marítima, este Museu integra uma boa coleção de referências sobre o património marítimo da região da Nazaré, mas também de alcance nacional, dando a conhecer não só a evolução de embarcações e aprestos marítimos através dos tempos, mas também as especificidades próprias das localidades de origem.

 

Pintura

A coleção de pintura inclui óleos, aguarelas e obras de técnica mista, sobretudo datadas do século XX. Umas impõem-se pela qualidade estética, outras apresentam a ingenuidade e colorido da pintura naïf, documentando os costumes à beira-mar, suas gentes e paisagem.

Entre os autores representados, destacam-se nomes como Guilherme Filipe, Lino António, Lázaro Lozano ou Abílio de Mattos e Silva, que elegeram a Nazaré como tema principal de parte significativa da sua obra e aqui viveram e conviveram com a comunidade piscatória.

Citam-se ainda pintores como Irene Natividade, Eduarda Lapa, Bertha Borges, Rosa Mendes, Manuel Fernandes, sem esquecer o pintor francês Paul Girol e a família de aguarelistas Roque Gameiro.

Com obra ímpar, sendo natural da Nazaré, é incontornável a referência ao pintor Mário Botas.

 Conheça algumas destas obras no Matriznet

 

 

Lázaro Lozano Viúvas Museu Nazaré

Lázaro Lozano, Viúvas na Praia, 1946

óleo s/platex, 63x75 cm. Inv. 31 Pint.

 

Consulte aqui a exposição "Outras Artes. Coleção de Arte do Museu Dr. Joaquim Manso" (2015).

Desenho

Neste núcleo merece uma menção especial o conjunto proveniente da coleção privada do Dr. Joaquim Manso, com autores do modernismo português, incluindo desenhos e caricaturas em parte reproduzidas no jornal “Diário de Lisboa”, de que era diretor, entre os anos 1920-50.

Estão representados Stuart de Carvalhais, Armando Boaventura, Almada Negreiros, Guilherme Filipe, entre outros.

Sobre a Nazaré, destacamos os desenhos de Abílio de Mattos e Silva, que servem de ilustração ao seu livro “Trajo da Nazaré” (1970).

Conheça estas e outras das obras de Desenho no MatrizNet

 

Pintura Naïf

Integram as coleções de pintura deste Museu obras de autores da Nazaré de carácter naïf que, para além do colorido e da sua ingenuidade representativa, também documentam aspectos da cultura marítima e permitem diversas leituras etnográficas.

Entre outros, referem-se António Vitorino Laranjo, Coelho da Silva, Raimundo Ventura, Domingos e António da Beca e José Júlio Zarro.

 

 

almada nazare

Almada Negreiros, Título desconhecido, 1933

tinta-da-china s/papel. 33x25,5 cm. Inv. 101 Des.

 

Consulte aqui a exposição "Caricaturas de outras gentes. Coleção do Dr. Joaquim Manso" (2016).

 

 

Coelho Silva Nazare

Manuel Coelho da Silva, Benção dos Barcos, 1976

aguarela s/papel, 10,5x14,8 cm. Inv. 71 Pint.

 

Gravura

Este núcleo integra sobretudo registos de santo alusivos ao milagre de Nossa Senhora da Nazaré a D. Fuas Roupinho.

Datados entre os séculos XVIII e XX, estes registos são fundamentais no estudo da iconografia do Milagre e da relevância histórico-social deste culto mariano, de alcance nacional e mundial.

 

 

NSNazare 259

Milagre de Nossa Senhora da Nazaré, séc. XIX

26x20,2 cm. Inv. 259 Grav.

 

Escultura

Além da escultura sacra como Virgem em Majestade (séc. XIII- XIV), Nossa Senhora da Nazaré protegendo D. Fuas Roupinho (séc. XVI- XVII), S. Sebastião (séc. XV) em exposição neste Museu, outras obras de autores contemporâneos expressam o trabalho e o drama vividos pelas comunidades piscatórias.

Neste campo referem-se, entre outros, os bronzes Tragédia Marítima, Pescador cosendo a rede ou Puxando as redes, de Henrique Moreira, Peixeira da Nazaré ou Pescador da Nazaré, do espanhol Juan Avalos, o gesso Pescador do Bacalhau, de Leopoldo de Almeida, ou a versão mais contemporânea de Nazaré, por João Fragoso.

Conheça estas e outras esculturas em MatrizNet.

 

 

Henrique Moreira Tragedia Nazare

Henrique Moreira, Tragédia Marítima, 1941

bronze, alt. 35,5 cm. Inv. 4 Esc.

Fotografia

O Museu dispõe de uma vasta coleção de fotografias relacionadas com o mar e com a Nazaré que, desde cedo, atraiu as lentes de autores nacionais e internacionais, figurando em múltiplas exposições e publicações.

Para além de serem registos documentais e etnográficos, fortes contributos para a história desta região, das comunidades piscatórias e suas práticas, algumas destacam-se pela sua autoria e incidência estética. Neste contexto, situam-se autores como Álvaro Laborinho (1879-1970) e o Arquiteto António Manuel Lança Cordeiro (1938-2000).

 

 

alvaro laborinho 1149

Álvaro Laborinho, Batel que chegou, 1909. Inv. 1149 Fot.

Consulte aqui a exposição "Revisitar a Nazaré de Álvaro Laborinho" (2018).

 

Etnografia

As coleções etnográficas versam, sobretudo, a cultura marítima, identificando a tipologia diferenciada de embarcações e aprestos marítimos existentes ao longo da costa portuguesa, abundando, contudo, as referências à pesca marítima e fluvial da zona de jurisdição da capitania do porto da Nazaré.

Outros pontos da costa como Ílhavo, Aveiro, Douro Litoral/Porto, Espinho, Póvoa de Varzim, Rio Tejo, Cascais, Setúbal e Algarve estão também pontualmente representados no acervo deste Museu.

Nesta categoria incluem-se ainda os testemunhos da construção naval em madeira, as várias artes de pesca (redes, anzol e armadilhas), assim como os artefactos relacionados com a preparação, transporte e venda do pescado, a habitação, crenças, usos e costumes das gentes da beira-mar.

Pelo papel que desempenhou na região, referenciam-se também os múltiplos testemunhos da presença dos nazarenos na pesca do bacalhau na Terra Nova.

Finalmente, na categoria da Etnologia situa-se também o Traje Tradicional da Nazaré.

 

 

 

foquim nazare

Foquim, madeira, alt. 30 cm. Inv. 548 Etn.

Embarcações tradicionais

Ramalho Ortigão, no final do séc. XIX, afirmava que “a variedade das nossas embarcações de pesca é fenomenal, e nela se reflecte a alma profundamente marítima do nosso povo”.

O acervo do Museu Dr. Joaquim Manso reflete essa variedade, integrando algumas embarcações de dimensões naturais e múltiplos modelos e miniaturas desta zona geográfica e de outros portos do litoral.

Da região da Nazaré distinguem-se nomeadamente o emblemático barco de arte xávega, caracterizado pela proa em forma de bico elevado e pontiagudo e fundo chato; o barco do candil e lancha auxiliar. Da pesca do alto, registam-se o catraio, o batel e bote; quanto à pesca costeira, os antigos galeões do cerco americano, as traineiras e as rapas; finalmente, da pesca fluvial na foz do Rio Alcoa conserva-se a memória do chamado “barco da lagoa”.

 

 

 

barco candil nazare

Barco do candil Rumo ao mar e lancha auxiliar (miniatura)

madeira, Inv. 941 e 942 Etn.

 

Consulte aqui a exposição "Entrar ao Mar. Miniaturas de embarcações do Museu Dr. Joaquim Manso" (2016).

Traje Tradicional da Nazaré

De entre a variedade do traje tradicional do litoral português, o traje da Nazaré distingue-se pela sua continuidade e por se afirmar como marca da comunidade.

Adapta-se às condições de vida e ao tipo de trabalho da faina do mar, oferecendo liberdade de movimentos, sendo prático e simultaneamente leve e agasalhador.

A secção de traje do Museu conta com várias centenas de peças de traje civil feminino e masculino, desde finais do séc. XIX a meados do séc. XX. Grande parte provém de doações, sendo apenas um pequeno número resultante de aquisições e reconstituições (uma vez que por ser um traje popular usavam-no até se romper).

O pescador da Nazaré “ia ao mar” com camiseta ou camisola axadrezada de escocês, ceroulas do mesmo tecido, cinta e barrete. Em tempo frio, acrescentava calças de surrobeco e o casaco “de retina”, de cores escuras. Em dias de festa, o homem vestia calças de surrobeco e camisola de caxemira (camisa) com três pestanas à frente e várias carreiras de botões.

Ainda hoje o traje tradicional feminino é usado por muitas mulheres da Nazaré no seu dia-a-dia. “Saias de cima” e “saias de baixo”, algibeira, avental de “riscado”, casaco ou blusa simples, xaile traçado, lenço (cachené), chapéu (hoje já não utilizado) e chinelas (ou descalças), compõem as vestes de trabalho, onde predominam os tecidos grosseiros e escuros, que protegem do frio e da salmoura.

É nos dias de festa que o traje feminino vibra com a cor dos tecidos e bordados do avental. É tempo das “sete saias” (ou mais...).

A esta vibração de cor opõe-se o o castanho do gabão masculino ou o preto cerrado do traje de luto, comum numa época em que eram frequentes os naufrágios numa luta nem sempre igual entre o homem e a força do mar.

 

 

ceroulas

Ceroulas, escocês. Inv. 937 Etn

 

avental nazare

Avental de Festa, merino bordado à mão. Inv. 893 Etn.

 

Consulte aqui as exposições "Como se veste a Nazaré? A tradição hoje" (2014) e "O meu cachené" (2015).

Arqueologia

Com uma área envolvente de grande riqueza arqueológica – Igreja de S. Gião, exemplar raro de arquitetura peninsular; área da antiga Lagoa da Pederneira, enseada abrigada com um mar interior cercada de terrenos férteis; Torre de D. Framondo e Coutos de Alcobaça, o acervo arqueológico do Museu integra múltiplos testemunhos da ocupação desta região desde a Pré-História e da relação dos povos com o mar.

De pesos de rede a fíbulas, de machados do Paleolítico a lucernas, fragmentos arquitetónicos a adornos pessoais, o Museu apresenta uma grande variedade de vestígios desde as épocas mais remotas ao período romano e medieval desta região do litoral português.

 

 

 

mascara nazare

Máscara-Aplique, Época Romana

terracota, 7x4 cm. Inv. 194 Arq.

Descubra o Património Imaterial da Nazaré


O Museu Dr. Joaquim Manso iniciou em 2011 um Programa de estudo sistemático do Património Cultural Imaterial da Nazaré, em particular: processos e técnicas tradicionais; práticas sociais, rituais e eventos festivos; tradições e expressões orais.

Realizado pela equipa do Museu, este Programa de estudo tem envolvido a colaboração de diversas entidades do concelho, sendo utilizadas as metodologias de inventário desenvolvidas pelo então Departamento de Património Imaterial do Instituto dos Museus e da Conservação, disponíveis através do software Matriz 3.0 - Inventário, Gestão e Divulgação de Património.

Conheça algumas das manifestações de Património Cultural Imaterial da Nazaré documentadas pelo Museu Dr. Joaquim Manso, disponíveis ao público através do MatrizNet.

Círio de Nossa Senhora da Vitória
Romagem secular que parte anualmente do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré à ermida da praia de Paredes.

 

 

Seca do Peixe
Processo tradicional de preservação alimentar, praticado diariamente na praia da Nazaré